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Associaçäo Européia de Psicanálise |
Para obter maiores informações sobre a psicanálise e sobre os analistas que
a AEP dispõe, acesse:
aepsi@libero.it
Presidente de Honra: Lucien Levy (U
)Presidente:
Antoine FratiniAno da contituição: 2001
Conselho Diretivo (2008/2012):
Presidente
Vice
Presidente
Comitê Científico de Formação
Colegiado de
Conforti Martino, Presidente
Fabrizio Ioppolo
A seguinte relação de nomes contém dados dos
associados da AEP, bem como algumas informações essenciais sobre eles. A
inclusão nesta relação é feita segundo regras estabelecidas pelo novo Estatuto
da AEP.
SOCIOS DE HONRA:
Claudio Ajmone
(Torino), Giorgio Antonucci (Firenze),
Michel Cazenave (Paris),
Gabriele La Porta
(Roma),
Thomas Szasz (Syracuse,
NY).
SOCIOS psicanalistas: Giovanni Allotta (Trieste), Eleonora Barea (Badoere di Morgano, TV), Roberta Barsotti (Firenze), Ada Cortese (Genova), Gianpaolo Crovato (Venezia), Alain Felmy (U - Paris), Manuel Galan (U - Paris), Enrica Giannelli (Viareggio), Fabrizio Ioppolo (Pomezia, RM), Giuseppe Latte (Firenze), Denise Maia (Sao Paulo), Jean-Luc Maxence (Paris), Domenico Mustone (Varallo Pombia, NO), Domenico Perrotta (Santa Maria Capua Vetere, CE), Licia Vasta (Bologna), Nicola Velotti (Nola).
SOCIOS: Roberto Bani (Firenze), Angelo Conforti (Fidenza, PR), Loren Mosher (U - San Diego, California), Nino Nava (U - Modena), Giovanni Antonio Palaggi (Viterbo), Giorgio Risari (Darfo Boario, BS), Sonia Sigurtà Braibanti (Calco, LC).
SOCIOS EN formação: Deanna Cej (Gorizia), Mara Corgnoli (Città di Castello), Giovanni Corti (Cuneo), Francesco Dal Moro (Padova), Anna Elisa Di Luca (Venezia Mestre), Elena Luciani (Perugia), Pietro Molin (Venezia Mestre).
ASSOCIAÇÃO EUROPÉIA DE PSICANÁLISE
DOENÇA MENTAL: O FLOGISTO DA PSIQUIATRIA di Thomas Szasz
A PSICANÁLISE HOJE: CIÊNCIA OU PSICOTERAPIA? di Antoine Fratini
A Associação Européia de Psicanálise
declara que não receberá fundos da parte de nenhuma instituição ou organização
que possa comprometer os princípios e a liberdade intelectual expressos em seu
estatuto
A Associação Européia de Psicanálise é uma associação livre, sem fins lucrativos, tendo como objetivo principal a defesa da psicanálise enquanto ciência do inconsciente. Suas atividades consistem na divulgação, promoção, pesquisa e formação no âmbito psicanalítico.
São estes os princípios fundamentais que defende:
1- Terapêuticos são os efeitos da análise adequadamente conduzida, enquanto o objetivo deve ser que a pessoa se conheça, tornando-se consciente através de um diálogo constante com o inconsciente.
2- A psicanàlise consiste, em sua definição mais ampla, em uma forma especial de diálogo e de vivência emocional que conduz à consciência e à realização do Self.
3- Por razões éticas, as diversas formas de diálogo não podem ser regulamentadas por imposições exteriores ao próprio contato analítico entre analista e cliente.
4- Nenhuma instituição ou corporação, pública ou privada, deve ter poder político ou legal sobre a psicanálise e sobre os analistas os quais, a fim de poderem oferecer um encontro realmente aberto e autêntico aos seus pacientes, devem permanecer livres na orientação de seus próprios pensamentos, interesses e ações.
5- O inconsciente, objeto de estudo do psicanalista, não pode se limitar à definição de um só autor, mas deve reunir todos os estudos que tenham obtido reconhecimento por parte da comunidade científica. Tal princípio é importante para garantir a abertura e a evolução, sem o qual a ciência corre o risco de perecer.
6- O melhor e o mais seguro modo para a formação de um analista se dá a partir de seu próprio processo psicanalítico. Todavia se sabe que esta não é a única forma de se entrar em contato com os processos conscientes e inconscientes.
Estes princípios têm, segundo nossa opinião, valores transculturais que são válidos para qualquer teoria ou orientação que se defina como psicanalítica.
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O demente não é o homem que perdeu a razão. O demente é o homem que perdeu tudo menos a razão" Gilbert K. Chesterton Na física, as mesmas leis que explicam porque os aviões voam, explicam porque eles caem. Na medicina, os mesmos princípios que explicam porque as pessoas vivem, explicam porque elas morrem. Porém, na psiquiatria, um conjunto de regras é usado para explicar o comportamento são e outro para explicar o comportamento insano: o comportamento são é atribuído a razões (escolhas); o comportamento insano a causas (doenças). Deus mede a Justiça Divina sem distinguir entre pessoas sãs e insanas. Seria uma arrogância pretender que nós sabemos mais. Contudo, é coisa sabida que os "gênios" são responsáveis pelos seus atos criativos, enquanto os "loucos" não são responsáveis pelos seus atos destrutivos. Daí a absurda conclusão que o comprometimento civil e a defesa da demência são práticas compassivas, justas, cientificamente esclarecidas. A doença mental está para a psiquiatria como flogisto estava para a química. O estabelecimento da química como estudo científico e como explicação da matéria dependia da disposição do investigador em reconhecer e admitir a não-existência do flogisto. Da mesma forma, o estabelecimento da psiquiatria como estudo científico e como explicação do comportamento humano depende da disposição dos psiquiatras em reconhecer e admitir a não-existência da doença mental. O ERRO EPISTEMOLÓGICO CONGÊNITO DA PSIQUIATRIA Benjamin Rush (1745-1813) foi um patriota americano e um dos assinantes da Declaração da Independência que trabalhava como médico geral no Exército Continental, lecionava medicina e era decano da escola de medicina da Universidade da Pennsylvania. Em 1774 declarou: "Recuperar a humanidade do vício poderá vir a ser, daqui em diante, assunto dos médicos da mesma forma em que hoje é assunto dos sacerdotes." Neste ato de medicalização encontra-se o erro fundamental da psiquiatria. Para se diferenciar dos doutores em teologia, os doutores em medicina não podiam simplesmente afirmar que estavam protegendo as pessoas do pecado, ou do vício, como colocado por Rush. A maldade continuava sendo, depois de tudo, um conceito moral. Como cientistas médicos, os doutores em medicina tinham que afirmar que a maldade era loucura, que o objeto dos seus estudos não era a alma ou "alvedrio", mas um objeto material, um corpo doente. Contudo, Rush não descobriu que alguns comportamentos são doenças, ele decretou que eles efetivamente são doenças: "A mentira é uma doença corporal..... O suicídio é loucura....... O desgosto, a vergonha, o medo, a raiva, a incapacidade perante atos legais, são loucuras passageiras." Hoje em dia alguns desses e muitos outros comportamentos humanos indesejáveis são amplamente aceitos como verdadeiras doenças -- "desbalanceamentos químicos do cérebro" -- cuja existência é ostensivamente apoiada por descobertas científicas da ciência neurológica. A ciência natural moderna apoia-se em leis não influenciadas pelo desejo ou motivação humanos. Não existe um conjunto de teorias médicas que explique as funções corpóreas normais e outro que explique as funções corpóreas anormais. Na psiquiatria, a situação é exatamente oposta. Existe um conjunto de princípios que explica o comportamento "racional" da pessoa mentalmente sã, e outro que explica o comportamento "irracional" da pessoa mentalmente insana. O primeiro é visto como um agente moral ativo -- ele escolhe, por exemplo, casar com a sua namorada; o segundo é visto como um corpo ou objeto passivo -- sujeito aos efeitos de forças nocivas biológicas, químicas ou físicas, as quais criam doenças (do cérebro), cuja manifestação pode ser, por exemplo, um irresistível impulso de matar. "A neurose epiléptica" , escreveu Sir Henry Mausdley (1835-1918), fundador da psiquiatria britânica moderna, "é aquilo que está sujeito a se transformar numa explosão convulsiva de violência.... Querer responsabilizar uma pessoa insana por não poder controlar um impulso insano... em alguns casos e tão falso quanto... querer responsabilizar um homem acometido por convulsões devido a "strychnia" por não poder controlá-las." Esta é uma falsa analogia. Matar é um ato coordenado. A convulsão é uma contração descoordenada dos músculos, uma ocorrência. Estamos orgulhosos da nossa busca interminável no sentido de abolir crenças preconceituosas sobre as diferenças entre as diferentes naturezas dos diferentes gêneros e raças. Ao mesmo tempo, estamos ainda mais orgulhosos de ter criado um conjunto de princípios psiquiátricos sobre as diferenças entre a natureza neuroanatômica e neurofisiológica das pessoas mentalmente sãs e daquelas mentalmente insanas. A oxidação, um processo real, explica melhor a combustão do que o faz o flogisto, uma substância inexistente e imaginária. Atribuir todos os atos humanos à escolha, base sólida de sustentação da nossa existência social, explica melhor o comportamento humano do que atribuir certas ações (reprovadas) à doença mental, uma doença inexistente e imaginária. Sem levar em consideração a condição de cérebro "irracional" numa pessoa, ela continua sendo um agente moral que tem motivos para os seus atos: como todos nós, ela escolhe ou deseja fazer o que faz. Pessoas com doenças cerebrais -- esclerose amiotrópica lateral, esclerose múltipla, Parkinson, ou "glioblastoma" -- são pessoas cujos atos continuam a ser governados pelos seus desejos ou motivações. A doença limita sua liberdade de ação, mas não a sua condição de agente moral. RESPONDENDO A OBJEÇÕESDe acordo com a teoria psiquiátrica, alguns atos de certas pessoas devem ser atribuídos a causas materiais, não a causas morais. Em quais ocasiões e de que forma procuramos uma explicação causal para uma conduta pessoal? Nas ocasiões em que consideramos o comportamento da pessoa como despropositado e não queremos culpá-la. Então, procuramos uma desculpa disfarçada como explicação, em vez de simplesmente procurar uma explicação que nem exonere nem incrimine. Responsabilizar uma pessoa pelos seus atos não é a mesma coisa que culpar ou elogiar essa pessoa por eles: isto significa que nós só vemos esta pessoa como um agente moral.
É errado acreditar que dar uma desculpa-explicação para um ato é equivalente a mostrar que a pessoa não tem motivos para as suas ações. Dar uma desculpa por fazer X -- "a voz de Deus me comandou" -- não é a mesma coisa do que não ter motivos para fazer X. Pelo contrário: o que mostramos até agora não é que a pessoa não tenha motivos, mas que os seus motivos são errôneos -- "enganosos", "loucos", "insanos". Assim, concluímos que os seus atos são provocados por ela estar enganada, louca ou insana. Mas, até aí, não provamos nada do gênero; simplesmente, postulamos o problema.
O "paciente mental" que atribui suas ações erradas a "vozes" não é uma vítima, um robot respondendo a um impulso irresistível; ele é um "vitimador", um agente que racionaliza o seu ato imputando a ele uma autoridade irresistível. A analogia entre uma pessoa que "escuta vozes" e um objeto, por exemplo um computador respondendo a uma informação programada, é falsa. O paciente mental que responde ao comando de "vozes" assemelha-se à pessoa que responde aos comandos de autoridades de respeito, exemplificado pelo "homem-bomba" que se auto imola por uma causa abençoada por Deus. Em ambos os casos as pessoas são agentes morais, se bem que ambos se auto intitulam como objetos escravizados, executando o desejo de um Outro, geralmente identificado como Deus ou o demônio.
Estas representações são metáforas dramáticas que tanto o ator quanto a audiência podem ou não podem interpretar como verdades literais. Não é um mero acidente que as "vozes" que um esquizofrênico "ouve" nunca mandem ele tratar bem a esposa. É por isso que tratar bem a própria esposa não é o tipo de comportamento que ele, ou nós, queremos atribuir a uma explicação causal -- psiquiátrica. Existe um método na loucura.
Thomas Szasz
(Traduzione di Denise Maia)
A psicanálise hoje: ciência ou psicoterapia?
O que desenvolverei a seguir é o meu ponto de vista pessoal sobre a psicanálise. O debate a respeito da natureza, do estatuto e dos fins da psicanálise, de início uma conversa curadora e que pouco a pouco se transformou em algo que ultrapassou largamente as fronteiras da terapia, sempre foi desde a origem do movimento analítico, muito aberto e ainda hoje não pode ser considerado finalizado. De fato, existem correntes de pensamento contrárias a este respeito. Na Itália, parece-me particularmente significativo, o fato de que as corporações tenham a intenção de incluir a psicanálise na categoria de psicoterapia apesar de não haver nenhuma referencia no texto de lei, nem a psicanálise nem a expressão (que teria podido criar confusão) “psicoterapias de tipo analítico”, justamente por causa da oposição das associações psicanalíticas interpeladas na época. Alguém pode certamente afirmar que a psicanálise é um tipo especial de psicoterapia, mas não deveria tentar impor esta sua opinião a toda uma classe de estudiosos, que, começando por Freud, tentaram sempre manter as regras científicas da sua disciplina. A democracia cultural impõe justamente o respeito a todas as correntes teóricas. Isto vale ainda mais para a psicanálise que se tornou há muito tempo um verdadeiro modo de abordar o conhecimento humano.Tanto é verdade que um intelectual que se respeite, mesmo podendo ignorar quase tudo da psicologia e da psicoterapia, não poderá dar-se ao luxo de desconhecer, as principais leituras da psicanálise, justamente porque é um assunto abordado por todos. De fato a psicanálise contribuiu para abrir questões novas e sutis, como o da objetividade das ciências, ocasião para vários debates interdisciplinares: o inconsciente diz respeito à ciência, porque diz respeito aos cientistas e à sua linguagem, sobretudo quando especulam sobre inferências, como por exemplo o big bang, os neutrinos, os “gravitoni”. Pergunta-se obviamente, como Pregogine quando cita a intervenção de Hadamart, qual o peso da fantasia e portanto do inconsciente, na criação destes modelos científicos.
A epistemologia científica está indissoluvelmente ligada ao axioma aristotélico, segundo o qual, a universalidade é o campo exclusivo da ciência. Uma grande parte do trabalho dos cientistas de todos os tempos correspondeu de acordo com Kuhn, a isolar fenômenos das constantes universais. Atualmente a física quântica, não poderia dispensar a constante de Planck. No campo da psicanálise, Freud colocou em Édipo, o que se viu de mais universal no homem e Jung foi o primeiro a pesquisar as constantes arquetípicas da fantasia. Embora representassem hipóteses de indubitável valor heurístico, tanto Édipo, quanto os arquétipos permaneceram como modelos ou interpretações que enquanto tais não fogem ao subjetivismo. Considerando no entanto a evolução do conceito ciência na época moderna, o fato de utilizar construções como Édipo e os arquétipos na investigação sobre o conhecimento humano, pode ser considerado um procedimento cientificamente válido. Isto porque em razão da natureza específica dos objetos de estudo (os quantum para a física e o inconsciente com os complexos para a psicanálise) tais construções assumem o papel de instrumentos necessários ao invés de fatores contaminadores.
Apesar disto, como observei numa publicação anterior, enquanto a psicanálise entendida como psicoterapia não oferece nenhuma dificuldade de compreensão, a psicanálise científica nunca deixou de ser objeto de discussões, apesar de ter se imposto sempre como uma ciência do inconsciente e de ter como objetivo claro, o autoconhecimento. Mas o que significam objetivamente o inconsciente e o si mesmo? A maior razão pela qual é tão difícil aceitar a psicanálise científica, está justamente na sua característica de ciência do subjetivismo, capaz de inverter o axioma aristotélico, segundo o qual só existe ciência a partir do particular, do subjetivo. Claramente o que é subjetivo, não pode ser nem universal, nem ser objetivo, isto é, não é objetivável em uma substância .Uma pessoa com sua história particular e com suas próprias idéias, com seus próprios valores pessoais e culturais, não pode reduzir-se a nenhum mapa neuronal. Em outras palavras a psique não equivale ao cérebro, mesmo havendo uma ligação indubitável entre eles. O biológico constitui somente o suporte material necessário para que a psique, enquanto que as motivações ou causas das várias perturbações psíquicas, pertencem ao campo das chamadas “questões humanas”, ligadas à linguagem do simbólico, ou seja, aos valores subjetivos e culturais da pessoa. Não entender ou não querer entender estas coisas, levou a aberrações no passado como por exemplo a atribuição de um prêmio Nobel a um neuro-cirurgião português Moniz “por sua descoberta do valor terapêutico da lobotomia pré-frontal, em algumas psicoses” ou a implantação dos programas de eugenética em esquizofrênicos em países como a Alemanha e a Suécia. Nos dias de hoje, muitas disfunções psíquicas inclusive neuroses são consideradas doenças mentais de origem hereditária pela psiquiatria oficial e tratadas por via farmacológica.
A psicanálise porém, não leva em conta a patologia nem a normalidade, não etiqueta as pessoas e nem busca novas substâncias mas ocupa-se do entendimento das verdades enunciadas pelo sujeito. Analisar é colocar à disposição da pessoa um espaço privilegiado em que possa falar e ser ouvida na sua verdade. O analisando pode tentar recuperar-se, percorrendo um caminho sabidamente em que se depara com resistências interiores cuja superação pode ser mais ou menos difícil. Isto porque, ao sentir-se ouvido e aceito tal como é, com o tempo passará a escutar-se e aceitar-se . Freud já havia insistido muito em sua obra e em suas aulas, sobre a questão das resistências implícitas neste trabalho. Há muitas coisas que não se quer aceitar e também o medo de se ver desfeitos os significados ilusórios tão caros, apoiando-se na vida mesmo à custa de alienações e neuroses. O homem nunca se cansa de contar para si mesmo histórias de si mesmo, até chegar a colocar-se em situações de dificuldade e de desconforto em confronto com a própria realidade.
Se o importante em análise são as verdades subjetivas, então os paradigmas, as teorias e a escola a que pertence o analista, correm o risco de tornar-se desvios e problemas. O analisando paga os honorários ao analista, para conhecer as próprias verdades, não importando se estas se encaixam num sistema ou não. Neste ponto devo dizer que lendo Freud tem-se as vezes a impressão que para ele “aprofundar” significa chegar necessariamente à teoria sexual. Mas apesar das várias escolas, a psicanálise enquanto abordagem da realidade da pessoa na minha opinião, continua sendo uma só: é aquela experiência única, segundo a qual nos aproximamos do sentido das próprias palavras e somos orientados para nós mesmos. Se a maioria dos distúrbios psíquicos não apresentam traços de patologia orgânica é porque os sintomas são expressões subjetivas, consistem em verdades a serem decifradas. A única finalidade da intervenção psicanalítica é de favorecer a revelação do inconsciente de modo que as palavras do analisando sejam não mais ignoradas, mas escutadas. Neste sentido os sintomas se tornam objetos de intervenção analíticas como por exemplo as contradições, os lapsos, os esquecimentos, os esforços para mudar ou não respeitar o acordo prévio sobre as regras e os fins da análise, as opiniões fantasiosas sobre a pessoa do analista, as resistências às questões específicas. Se a análise consistisse em fornecer conselhos sobre como se comportar ou soluções prontas para uso, então seria psicoterapêutica. Mas o analista sabe que deste modo cai no risco da armadilha das resistências e de vender aos clientes/analisandos, uma outra mercadoria, ao invés daquela pela qual estão pagando, transformando-os ao mesmo tempo em pacientes. Na minha opinião não haveria incompatibilidade a priori, se um analisando desejasse ou decidisse ir a um psicoterapeuta esperando “curar-se” de um sintoma. No entanto seria importante que ele pudesse analisar seu próprio desejo ou sua decisão.
O quadro no qual o analista e o analisando devem poder movimentar-se livremente é constituído, como nota corretamente. Szasz, pelo tipo de contrato feito inicialmente, sobre as regras da análise. É pois particularmente importante que o analista esclareça logo de início, qual é seu papel: analisar o material trazido à sessão, sem intervir diretamente com intenção terapêutica em relação aos sintomas. O analista não acredita na doença mental. Sobre isto a opinião de Szasz é radical: termos como esquizofrenia foram inventados pela psiquiatria moderna para catalogar o distúrbio na doença, mesmo não existindo histopatologia e fisiopatologia demonstráveis. Assim, patologizando o distúrbio, primeiro a psiquiatria e depois um certo tipo de psicanálise (a que se define como “psicoterapia analítica”), serviram e ainda servem do melhor modo possível à vontade política de controle social.
Uma outra preliminar de importância fundamental em análise, diz respeito à livre condição intelectual do analista. Se ele quiser ensinar autonomia e liberdade aos seus analisandos, deve ser ele mesmo livre e autônomo. Para isto, mesmo que pertença à uma corrente de pensamento ou à uma instituição analítica, só deve prestar conta a si mesmo, assim como não pode coerentemente valer-se de nenhuma outra legitimação que não seja aquela proveniente de sua conquista interior. Esta se obtém através de uma análise pessoal realizada autenticamente. Para isto, Lacan enfatizava que somente a análise pessoal pode adquirir valor didático. Por uma questão de honestidade deveríamos acrescentar que a análise pessoal não pode nem tornar-se um critério formativo obrigatório, pois alguns dos mestres mais importantes da psicanálise, nunca foram analisandos, mesmo se em um determinado momento tivessem podido fazê-lo. E também porque a análise não pode ser considerada o único modo absoluto para se chegar a um certo conhecimento do inconsciente. A este respeito Jung se mostrou particularmente aberto, afirmando que uma formação adequada naquele campo podia também derivar de uma experiência de vida particularmente rica e intensa, do conhecimento profundo de um grande número de pessoas, de ambientes e de culturas diversas. Enfim, a psicanálise pode certamente privilegiar alguns critérios normativos, mas não deveria ter (mesmo sendo difícil), nenhum tipo de preconceito.
Retornemos à questão da escuta.. Poder-se-ia pensar que não há necessidade de ir a um analista para ser escutado, que um amigo é suficiente e que além disso não se deveria esperar muito em termos de efeitos terapêuticos de algo “soft” como a escuta. Quanto à primeira objeção, gostaria de colocar francamente em dúvida a possibilidade de encontrar em um amigo ou parente, uma escuta verdadeira e profunda como a do analista. Seria o caso de nos perguntarmos quantas pessoas nos fizeram sentir realmente compreendidos e aceito por aquilo que somos para vermos quão rara e esta situação. O amigo alivia a solidão, troca ou tenta impor idéias ou opiniões, exalta a participação em projetos comuns, partilha experiências, faz parte da nossa vida, mas não é neutro; espera retorno, entra em competição, etiqueta facilmente, ressente-se e não dá a mínima importância para elucidar as determinações inconscientes da relação. Aliás, porque deveria fazê-lo se não sente a exigência disto e não é pago por isto? Em resumo, o amigo não está particularmente disposto a escutar.
A segunda objeção requer uma resposta mais articulada que concerne à lógica, mas que está diretamente ligada à anterior. Se a escuta é tão difícil de encontrar, em que consiste? E o que significa escutar-se? Escutar alguém, significa aproximar-se das verdadeiras motivações de sua fala, as que se escondem por exemplo, atrás de um ato falho ou de um sonho; quer dizer, trazer o interlocutor de volta à realidade.
Deste ponto de vista existe uma certa analogia entre a psicanálise e o taoísmo zen, cujos “Koan” produzem revelações frequentes sobre a realidade mais íntima do adepto. Existem essencialmente três tipos de respostas verbais possíveis. Posso responder somente em relação ao discurso aparente do meu interlocutor, dizendo se estou de acordo ou não com o que ele diz, mas não tratarei nesta intervenção de suas verdadeiras motivações. Se sair do plano aparente seguindo minha intuição, corro o risco de ser muito direto ou simplesmente de me enganar. A terceira possibilidade é a mais analítica e consiste em refletir sobre os pontos pouco claros, os esquecimentos, as contradições, as manifestações relatáveis e as resistências. Por exemplo eu poderia questionar a um analisando sobre sua mudança de humor, enquanto afirmava sua indiferença quanto ao tema em questão. Após intervenções como esta e dentro de um processo de transferência, o analisando poderia exprimir a intenção de interromper a análise, alegando motivações aparentemente objetivas. A intervenção do analista, em seguida, será no sentido de chamar a atenção para a ligação existente entre o desejo expresso do analisando e o que aconteceu antes. Deste modo o analisando acaba por entender que ele é o único responsável e protagonista de seu processo analítico. Ele entende que a análise lhe permite escutar-se , o que sempre havia procurado, mas não encontrará, nem nos livros, nem nos amigos, nem na namorada, nem no psiquiatra ou terapeuta. É sobre esta simples constatação que se baseia por exemplo, Lacan , quando introduz a distinção entre palavra vazia e palavra plena. A primeira caracteriza o sujeito que não se escuta, que faz rodeios, fofocas usa termos convencionais e trejeitos verbais etc... cujo vazio parece ser inversamente proporcional ao volume de palavras pronunciadas. É uma palavra que não satisfaz porque não consegue encontrar uma realização; com o tempo torna-se desoladora, caprichosa e suicida. Palavra enfocada, forte, mas também doce como um murmúrio da água, ou cheia da ironia que revela a antiga cumplicidade entre o riso e a verdade. Por um lado, portanto, a superficialidade e a alienação, por outro, a fonte do sujeito.
A psicanálise encontra na escuta o elemento que a caracteriza melhor. Escutar é a única coisa que o analista deve saber fazer, único serviço que ele tem o dever de oferecer a quem se dirige a ele. Acredito que a psicanálise se não pretende vender a própria alma, deve limitar-se honestamente a confirmar e a exercer na prática sua função analítica, reconhecendo os limites sobretudo os especificamente terapêuticos, ligados à sua natureza e ao seu propósito. Este objetivo não visa diretamente nem a cura dos sintomas, nem a resolução de problemas particulares, mas sim alcançar uma clareza suficiente com relação às próprias questões. A necessidade de falar com alguém que saiba escutar, é provavelmente tão antiga quanto o homem e forma uma dinâmica que pode ser encontrada em todos os tipos de relações interpessoais. A transferência, deveria ser vista como algo mais do que a busca inconsciente de certas figuras importantes do passado pessoal: como a procura de um interlocutor capaz de escutar.
Antoine Fratini
(Traduzione di Denise Maia)
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